Proporção Inversa Ofensividade-Frequência

A lei da Proporção Inversa Ofensividade-Frequência (sim, eu inventei o nome) descreve que:

Quanto menos frequente é a ocorrência de um evento ofensivo em nosso ambiente, mais ofendidos ficamos nas raras ocasiões nas quais ele ocorre.

 

Creio que podemos observar este princípio em ação ao longo da história de forma bastante recorrente e confiável, seguindo o roteiro:

  1. um hábito era amplamente aceito em uma sociedade;
  2. a sociedade avança de forma que, subitamente, o hábito se torna obsoleto e desnecessário;
  3. um número progressivamente maior de pessoas deixa de praticar o hábito;
  4. os indivíduos não-praticantes repudiam fortemente os que ainda praticam.

Da história…

Meu exemplo favorito é a questão do trabalho infantil. Crianças trabalhando eram algo muito natural no século XIX, mas o aumento da média salarial de adultos – que ocorreu em função de forças puramente econômicas e industriais – fez com que esta renda adicional não fosse mais necessária para sustento familiar. Com crianças ‘livres’ passando mais tempo em casa e escola, a sociedade se tornou progressivamente menos tolerante ante famílias cuja condição financeira ainda requeria suporte de crianças. Em um período de cerca de uma década, a percepção pública sob a questão mudou completamente – gerando imensa pressão social que resultou na criação das primeiras leis contra exploração do trabalho infantil.

Note como neste caso um hábito se tornou moralmente condenável em função de questões puramente pragmáticas – o crescimento econômico da época requeria o aumento do poder aquisitivo. Isso não ocorreu por pressão do estado, ou da sociedade, ou de forma planejada. Ninguém estava “pensando nas crianças”. Porém, sem a necessidade original que justificava o ato e fazia deste algo natural e integral ao status quo, a frequência deste rapidamente diminui enquanto a indignação social ante este cresce vertiginosamente.

Um exemplo mais recente e trivial é o hábito do fumo. Fumar era algo amplamente aceito pela sociedade, uma atividade praticamente necessária para devida integração social. Na última década, enquanto o número de fumantes caía drasticamente, a sociedade começou a repudiar o ato – que agora possui forte estigma social e tem sua prática controlada por legislação.

…para o Facebook

O fenômeno é especialmente observável atualmente em jovens de classe média. O subgrupo social composto de indivíduos bem-educados e digitalmente habilitados (que descrição técnica para um grupo que você fatalmente conhece de forma intuitiva) não é muito exposto a vários problemas sociais outrora mais frequentes – como preconceitos de raça e gênero e crimes sexuais; e justamente por isso sua indignação ante estas situações é imensa.

Este grupo repudia fortemente a prática destes atos em outros grupos sociais onde este ainda é frequente (racismo para com negros com menor poder aquisitivo; exploração sexual e desigualdade de gênero em nações islâmicas, etc), e reage com escárnio nas raras ocasiões onde os atos emergem dentro do grupo.

E aí?

Tenha esta lei em mente ao observar indignação pública ante uma prática e ter a vaga impressão de que nem sempre era desta forma. É falacioso presumir que esta indignação possui justificação moral, ética ou racional somente por ser amplamente presente hoje – como demonstrado, esta geralmente segue a redução da prática do ato em questão, ocorrendo por questões de forma alguma relacionadas aos méritos morais/éticos/racionais deste.

Resumindo: na maior parte do tempo, o repúdio social ante um evento é consequência da obsolescência deste, não sua causa.

— Matheus E. Muller

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